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Primeiro capítulo – AgoraEle: Por que você não vem para cá? Fechei meu laptop com as duas mãos espalmadas sobre o adesivo de flores que cobria seus anos de uso. Eu acariciava a tampa lentamente. E o gesto me fazia lembrar dos meus pais distantes dali por muitas milhas. Pensar na vida. Na parede lisa do corredor do apartamento poucos quadros antigos de tapeçaria com estranhas paisagens, uma mesa aglomerada de marfim, meus livros da faculdade espalhados e minha velha mochila de colégio sobre as almofadas no chão da saleta. A diminuta luz do modem piscava rápida, certamente mais rápida que a conexão de Internet. Fevereiro de 2008. Rio de Janeiro. As meninas da casa passavam de um lado para o outro e tagarelavam a torto e a direito. Queria dizer que falavam muito. Foi essa expressão que ele usou no Chat antes de dizer pra eu ir lá. E lembrei que ele disse agora. A-go-ra. Recolhi os livros, laptop e coloquei na mochila cuidadosamente deixando no mesmo lugar. Silvana se maquiava no espelho do único banheiro compartilhado entre, por enquanto, seis meninas. No apartamento mais uma saleta, uma pequena cozinha e dois quartos. A campainha tocou. Provavelmente mais uma colega para dividir o quarto maior. Dona Mercedes era a dona daquele apartamento velho na Rua Silvio Romero. Ela insistia em abarrotar nossos quartos de moças e seus bolsos do dinheiro que cada uma pagava separadamente. - Deixa que eu a recebo. Quem sabe não consigo fazer ela desistir. - Disse Silvana com olhar meio insatisfeito. Fingíamos que ela, como a mais velha nunca antes dissera aquela frase indesejável para nós quando batemos àquela porta. Entrei no chuveiro rapidamente. Muitos frascos, potes, barbeadores, calcinhas e cremes espalhados pelo box do banheiro. A água só gotejava. Abri o registro que havíamos fechado por causa de um vazamento e a água explodiu molhando tudo. Voltei rapidamente quase escorregando na cortina de peixinhos. Aquela cortina sempre me fazia sorrir. Era colorida e podia me transportar em um mergulho dentro do mar. Debaixo do chuveiro cerrei os olhos. Chegou ô, ô, ô, ô Mangueira teu passado de glória Lembrei dele cantarolando com seu amassado chapéu de malandro. Sua testa suava. Vestia camisa verde-clara com detalhes brilhantes e por fora uma camiseta cor-de-rosa com botões. Sambava bem, com alguns passes trocados que só as meninas podiam perceber. Mas se errava eu percebia que o fazia sem medo. Eu também trocava a maioria dos passes. O ritmo era novo pra mim. Ele sorria do meu jeito desajeitado de sambar. O salão estava tão cheio de gente que nossos olhares, mesmo quando se achavam se perdiam, a tempo de não nos deixar sem graça. Em algum momento ele havia sumido e veio com seus amigos dançar muito próximo de nós. As meninas queriam ir embora, eu esperava o momento de ele me dizer algo e se atirar para cima de mim como acontece sempre. Eu já havia até me preparado para dizer não para um cara meio troglodita, quando ele simplesmente não fez nada. Silvana me puxou pelo braço. Já íamos sair quando Aline me entregou um papel em branco. - Escreve. Cheguei bem perto dele, disse Oi e deixei-lhe o bilhete. Envergonhada, tentei sair correndo quando ele me puxou pelo braço perguntando o meu nome: - Stella. Sou Stella, e, e preciso ir. – Parti dali me sentindo desnuda. Mais nua que um destaque de carro alegórico. Mais exposta aos olhares que a rainha de bateria da Estação Primeira. CommentairesPour ajouter un commentaire, connectez-vous avec votre identifiant Windows Live ID (si vous utilisez Messenger ou Xbox LIVE, vous avez un identifiant Windows Live ID). Connectez-vous Vous n'avez pas d'identifiant Windows Live ID ? Inscrivez-vous RétroliensL'URL de rétrolien de ce billet est : http://leonardoviana.spaces.live.com/blog/cns!93373B587E7E5C5C!3258.trak Blogs Web qui font référence à ce billet
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